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Gilberto
Abreu conta aos alunos do Quarup sua experiência com a Ditadura
Militar no Brasil. |
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Professor, o filme “Batismo de sangue” retrata a ditadura militar sofrida no Brasil entre 1964 e 1985. O que o senhor discutiu com os alunos sobre este período? Gilberto Abreu: A ditadura militar aconteceu num cenário de luta ideológica, que foi a Guerra Fria. O Brasil era um país importante demais para os Estados Unidos que tinha muito receio de que virássemos comunistas. Era preferível um país sob ditadura que sob o comunismo, por isto o EUA apoiou o golpe militar em 64 que mergulhou o país em uma triste ditadura. Eu mesmo fui vítima dela.
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| Como? GB: Felizmente eu não sofri tortura como os padres dominicanos, mostrados no filme. Eu fiz a letra de uma canção que foi considerada subversiva, então fiquei dez dias preso. Na música que fiz, eu falava da injustiça social, sobretudo em relação a posse da terra. Isto naquela época era como uma heresia. Eu não sofri torturas, mas eu ouvia pessoas sendo torturadas na prisão e isto foi uma tortura moral muito forte. Foi algo realmente horrível. Como foram os dias na prisão? GB: Na minha prisão estavam vários atores do grupo de teatro norte americano Living Theater. Este grupo de teatro veio ao Brasil para provar que aqui havia tortura e foram presos no festival de inverno de Ouro Preto. Depois quando voltaram ao exterior, divulgaram coisas que a ditadura negava. Eles disseram que o Brasil era um palco de tortura como qualquer outra ditadura latino-americana. O líder do grupo teatral no dia que me viu na prisão fez um gesto de ioga e disse: “Preso por uma canção?”. O tom dele era de indignação, pois ser preso por uma música era inconcebível para um estadunidense. Apesar de saber da participação dos EUA no golpe militar, atitudes como estas eram inadmissíveis para um estadunidense. Foram 21 anos de ditadura no país, por que os militares ficaram tanto tempo no poder? GB: Porque a ditadura militar aliava a repressão política a um grande crescimento econômico. Enquanto havia crescimento econômico muito grande, as pessoas desconheciam a ditadura. Então como as pessoas trocavam de carro de seis em seis meses, a maioria que podia estava satisfeita. A coisa começou a azedar quando começaram prender filhos da classe média. E o regime político só entrou em crise quando a economia entrou em crise. Aí o respaldo popular que a ditadura possuía foi sendo minado até culminar no processo de redemocratização. Na opinião do senhor é importante que através de filmes os jovens conheçam a história? GB: É importantíssimo, porque o povo que perde a memória é fadado a repetir a própria história. Projetos como o Cine Quarup são fundamentais para não deixar que o futuro do nosso país seja comprometido. Discutir filmes históricos nos ajudar a zelar pela nossa memória e não repetir a história nos seus piores momentos. Mas nós temos momentos brilhantes na nossa história também e estes precisam ser lembrados resgatados e repetidos para que assim o Brasil consiga sair de alguns buracos negros que entrou. |
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